IV Capítulo "O ciclista e o trepador de árvores" parte II


- Olá, tudo bem aí?

- Olá, estou a ver que tu e teu amigo também vão para o acampamento. – saudei nervosamente. Acho que com certeza eu tinha um sorriso de orelha a orelha.

- É claro que vamos. Quem é que não vai aproveitar um dia destes a fazer algo que goste? – desta vez não foi o rapaz que estava sentado ao meu lado que disse, mas sim o rapaz da bicicleta. Nesse momento estava a entrar na pickup, sem prestar atenção para quem estava a falar. “Não... Concentra-te miúda!” pensei impaciente, quase a rasgar as minhas bermudas camufladas graças aos nervos.

– Não é? - ele virou-se para mim para ver com quem é que a conversa estava animada. A sua sobrancelha levantou-se um pouco mais do que a outra quando olhou para mim.

- Pronto para a viagem, Cyrus? – perguntou-lhe o seu parceiro.

- Não… não sei… está meio calor aqui dentro…

- Oh, não te preocupes! Vinte e sete graus não fazem mal a ninguém… Hoje o dia vai ser bom! – confortei-lhe, enquanto ele sorria para a janela, a seguir pus-me a ler a revista jovem do mês, tentando distrair-me.

Não deu para perceber mas acho que ele estava meio nervoso durante a viagem, mas virou-se para mim algumas vezes. O amigo dele continuava a mastigar, ora uma sanduíche, ora uma pastilha. Foram mais ou menos duas horas de pressão para ele. Não para mim porque eu estava me sentindo serena, apenas a espera de uma hora para poder o atacar. À frente o casal rebelde não ligava nenhuma aos seus passageiros e iam muito felizes. Mas o silêncio transbordava no carro, até que…

- Então, rapariga. Vives aqui por muito tempo? Chamo-me Seth Dorian e tu?

- Sou Thelma Black. Sempre vivi aqui e sou eu que vos vejo pela primeira vez.

- Pois, morávamos apenas a uns sete quarteirões da nossa casa actual. Normalmente passamos quase o dia todo trancados em casa a ver a televisão ou a jogar no computador. É muito divertido, já experimentaste?

- Sim, da última vez que fiz isso fiquei enjoada, esfomeada e com falta de apetite… foi meio esquisito.

- Hum…

A conversa acabou no mesmo momento. Eu dei um ponto final muito irregular. Não que eu não quisesse falar com esse rapaz simpático, Seth, mas eu ainda estava focada nos acontecimentos da manhã.

Percebi quando chegámos quando entramos numa clareira, com tendas montadas e alguns jovens a arrumar as coisas, assim como Cassie, que estava radiante. Mal o motor do carro foi desligado o tal rapaz, o Cyrus, ou lá como se chamava, disparou do carro e apanhou a sua bicicleta.

- Seth, o teu amiguinho parece excitado para o acampamento.

- Nem imaginas, ele adora a Natureza e deve estar a sentir-se in the zone. Quando vê algo interessante é como se estivesse hipnotizado. Agarra na sua máquina e “zás!”, “zás!”, percebes?

- Ah, fotografias... O que vais fazer hoje no acampamento?

- Vou explorar a floresta.

- Também eu… quer dizer, posso ir contigo? – foi engraçado estar com ele, mas o estilo é mesmo animal.

- Claro! Vamos trepar as árvores. E depois podemos nos entregar aos desportos radicais. Vou correr com a minha bicicleta.

- Eu também. Parece mais entusiasmante fazer isso na floresta, vamos juntos?

- Claro! É um prazer em acompanhá-la nesse percurso.

Sorri-lhe. Ele era muito divertido, e me levantou o astral imediatamente.

Fui cumprimentar a Cassie. Ele parecia mesmo feliz com a sua vida independente, apresentou-me o seu namorado, e anunciou-me que estavam noivos. Stewart fez-lhe a proposta na noite passada, no jantar na cidade. Dei-lhe os parabéns e desejei-lhe felicidades.

A hora já estava a chegar para o meio-dia e já podíamos sentir o cheiro do barbecue, e rapidamente os nossos estômagos começaram a queixar.

O almoço foi muito alegre. Estávamos sentados em círculo e eu estava junto com Seth. Ele me explicou que come muito quando está ansioso, e não foi só isso que me fez rir. Ele se pôs no meio do círculo e pôs-se a contar anedotas e histórias de partir o coco. Mas faltava alguém.

IV Capítulo "O ciclista e o trepador de árvores"



Puxei pela trela do Shelby e pus-me a andar atrás do rapaz. Comparando com as minhas pernas com a sua “mega bicicleta” era provável que não chegaria a ele nem a correr. Ele virou uma esquina e eu o perdi de vista. As casas eras quase todas brancas e mesmo que a luz do sol era pouca ofuscava a minha visão. Fechei os olhos e podia lembrar-me da sua bela cara morena com o cabelo negro a balançar no vento, e a pedalar a bicicleta. Quando abri os olhos Shelby corria como o vento e latia.
Que estupidez…O que deu em mim para me distrair tanto? Já podia ouvir latidos da outra esquina. Podia contar que ele já tinha alcançado a bicicleta. Corri para o lugar para o observar melhor, mas ele já estava a entrar por entre as árvores do bosque, e quanto ao cão, estava no parque, um parque onde eu costumava brincar quando pequena, Schelby esteve o tempo todo a perseguir um esquilo, que nesse momento estava abrigado numa árvore a observar o predador com os olhos esbugalhados e cheios de pânico. Suspirei profundamente e olhei para o céu.
Agarrei no meu cão, e fui para casa. Já estava na hora do acampamento, e eu ainda tinha que apanhar a minha mochila.
Chegada em casa, fui buscar um copo de chocolate quente, que me podia dar energia para uma boa parte da manhã de acampamento e finalmente caí no sofá, tentando recuperar o fôlego e matutando qual é a daquele sujeito. Que falta de moral, que ignorância de perseguir gente. E ainda fugir com fotografias. Eu estava fora de si, era insuportável pensar que alguém esteja com a minha imagem e o que iria fazer com ela. A minha mãe desceu as escadas. Já estava bem acordada e com um bom humor.
- Bom dia, Thelminha!
- Bom dia… mãe. – balbuciei ainda tentando perceber se não era ilusão. Cheguei até a engasgar-me com o chocolate que levemente aquecia as minhas mãos. – Que bom que acordaste. O dia está lindo lá fora.
- Perfeito! Já não via a luz do sol a uns dias…
- Não achas que seria melhor se saíssemos… quer dizer, eu vou acampar com a malta…
- Fico feliz por ti! Então… eu e a Elyon vamos à cidade, às compras.
Ela perecia mesmo feliz, desde que o pai lhe levou para jantar fora, nunca a vi tão feliz assim, como agora. As faces dela estavam rosadas de alegria e os seus olhos brilhavam como as estrelas que eu observei na noite passada. Os meus pensamentos foram interrompidos por uma buzina do lado de fora da casa. Era a Kyra e os seus amigos, que eu iria conhecer logo.
- São eles mãe! – beijei-lhe a face e ela de seguida beijou-me a testa. – Te vejo depois.
- Diverte-te. Boa sorte.

Apanhei a mochila e a minha bicicleta e parti para fora de casa felicíssima. A Kyra me esperava na sua pickup prateada no banco passageiro da frente. E adivinha quem conduzia. Scorpio, o seu namorado, podia reparar nas características que ela me deu ontem à noite. Era bastante sensual como me disse, mas muito pomposo. Estava ali como se estivesse a posar para a capa de alguma revista.
- Hello, gorgeous! – saudou-me Kyra. – Estava a oitenta e cinco porcento certa que vinhas.
- E porquê não os outros quinze?
- A tua mãe… mas pelos vistos, ela acordou muito bem-disposta.
- Ah… Como é que sabes?
- Ela está aí na porta a acenar para ti. – Kyra avisou-me enquanto acenava á minha mãe.
Ri-me, e coloquei a minha bela bicicleta para trás da pickup junto com as motos do casal, era necessário levar as motos e bicicletas consigo porque a floresta era quase a uns duzentos quilómetros. Entrei no carro, e acomodei-me nos bancos de trás, mas antes de poder relaxar por completo Kyra virou-se para trás, assim como Scorpio.
- Oh, sorry! Esqueci. Este é o Scorpio, se é que já sabes.
- Eu já adivinhava…
- Prazer em conhecer-te. – falou ele, ou melhor… declarou com a sua voz estonteante. Logo de seguida Kyra beijou-lhe a face.
- És irresistível!

Fiquei meio constrangida naquele momento, por estar no mesmo carro que eles. O carro arrancou, e ao mesmo tempo o meu estômago virou ao avesso. Na rádio tocava um rock bem romântico, e esquisito, eu nunca tinha ouvido uma música desta antes, mas depois reconheci as vozes da música. O Scorpio e a Kyra cantavam juntos. Eram uma banda. Eles pareciam muito apaixonados, mas era muito incomodativo, muito… meloso… muito…
- Kyra, os rapazes também vão, não é? – perguntou Scorpio.
- Sim, por isso não te esqueças da próxima curva à esquerda.
Era de esperar… não iria ficar aí toda confortável nos bancos de trás por muito tempo. Uns dez segundos no máximo.
O carro parou na frente de uma casa laranja com trepadeiras a cobrir o portão alto. Da porta do portão saíram dois rapazes com um estilo bem selvagem. Mas fiquei boquiaberta quando vi que um deles tinha o cabelo espetado e levava uma bicicleta de montanha com ele. Era o rapaz da bicicleta que eu tinha visto!... Ele pôs a sua bicicleta junto com as outras, enquanto o seu companheiro entrava no carro e assentava-se no mesmo banco que eu. O seu amigo tinha uma estatura média, os cabelos cor de chocolate que por pouco tocavam-lhe os ombros e uma cara de um adolescente que sabe aproveitar a vida. Muito feliz com uma sanduíche na mão. (...)